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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Uns E Outros



Ninguém dá nada a ninguém
Assim sempre ouvi dizer
Se acaso derem porém
Algo de mais acontece
Ficarás sempre a dever
Pois p’la vida que eu vivi
Aquele que dá nunca esquece
E é uma forma de falar
Já muito dei e esqueci
Que eu também sei perdoar

Toma um conselho afinal
Faz pois como o meu marido
Mesmo que parecesse mal
Ele nunca aceitava nada
Era um homem precavido
E eu que sempre o respeitei
Aquele com quem fui casada
E ao depois enviuvei

Sem nunca dever favores
Morreu de cabeça erguida
Tomara muitos doutores
Pois se não estamos seguros
Diz-me a experiência da vida
Que ao pagares pagas com juros

Comigo não era assim
Nem toda a gente é igual
Mas não me peças a mim
Vai bater a outra porta
E nem me leves a mal
Pois se não é má vontade
Não tenho onde cair morta
Em abono da verdade

Já roubei p’ra poder dar
E levava tudo a eito
Com vontade de ajudar
Tal como o Zé do Telhado
Mas se agora não me ajeito
Só se pedisse emprestado

Tenho a mente atrofiada
Que nem consigo pensar
Se acaso estou reformada
Não tem nada que saber
Não me posso endividar
E não encontro outra forma
O que é que eu posso fazer
Com a minha fraca reforma

Sinto pena da pobreza
E dos mais necessitados
E sentam-se à minha mesa
Pois gosto de repartir
Com os rostos engelhados
Que às vezes sabem sorrir

Faço sopa de feijão
Leva chouriço e toucinho
E umas fatias de pão
Que aconchegam certamente
E vai um copo de vinho
Que a alma está regelada
E um copinho de aguardente
Com um naco de marmelada

E sempre que esteja frio
Fica então já combinado
Mesmo que tenhas fastio
Podes pois contar comigo
Dou-te um cálice de abafado
Só por te ver a tremer
E um licorzinho de figo
P’ra te poderes aquecer

E a vida tem mais sentido
Com a minha forma de ser
E assim era o falecido
Sem nunca nada aceitar
Tinha contudo o dever
De sempre querer ajudar

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