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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Assalto



Ai fiquei tão transtornada
‘Inda pensei que era fita
Mas se ficou entrevada
Quando teve o AVC
Tenho pena pobrezita
Quem a viu e quem a vê

Lá fui eu à capital
Que era a minha obrigação
Visitá-la ao hospital
Coitadinha da Alzira
Com tanta medicação
A pobre já mal respira

Nem sequer me conheceu
E eu que nem me queria crer
Se é bem mais velha que eu
E eu que não sou nada nova
O que é que eu fui lá fazer
Se ela está com os pés p’rá cova

Não me dava conformada
Nem me tinha conhecido
Senti-me até desprezada
Sem a poder abraçar
Mas já que tinha lá ido
Fui-me deixando ficar

Começou a anoitecer
Estava então de saltos altos
Mal me podia mexer
Pus-me ainda mais nervosa
Tenho medo dos assaltos
Que eu sou muito temerosa

Sem navalha nem pistola
Nem faca de ponta e mola
Pois se eu cá sou uma senhora
Ando sempre apetrechada
Com uma pequena tesoura
Se acaso for assaltada

Despedi-me entristecida
E lá fui eu de fugida
Perdida no desengano
A querer ganhar coragem
P’ra ir p’ró metropolitano
Onde pára a gatunagem

Apareceu-me um encardido
E fiquei desconfiada
Tinha cara de bandido
E uns pregos nos sobrolhos
Ai punha-me arrepiada
Quando ele me olhava nos olhos

Vai nisto desnorteada
Vi que me tinham palmado
O relógio do meu marido
Fiquei pois tão indignada
Agarrei-me aquele malvado
Disse-lhe então ao ouvido

_ Passa o relógio p’ra cá
Toma cuidado ó matreiro
Não te dê uma coisa má!
E ele nem sequer estrebuchou
Devolveu-me por inteiro
Aquilo que me roubou

Depois vim sempre a fugir
A dar mal à minha vida
A pensar-me perseguida
Sem ninguém p’ra me acudir

Sei que até sou rabiteza
Mas só fiquei descansada
Quando abri a minha porta
Pois senti-me aliviada
Ao ter então a certeza
Que afinal não estava morta

Lá fui eu à minha lida
Tinha o jantar preparado
Muito bem condimentado
Pois era só aquecer
E andava tão distraída
Nem nunca mais me lembrei
Que a outra está p’ra morrer
E do susto por que passei

Mas quando entrei no meu quarto
Ai credo cruzes lagarto
Pois se eu nem me queria crer
No relógio que estava a ver

Afinal do falecido
Nem sei como fui capaz
Certamente é parecido
E eu fui roubar o rapaz

Fiquei toda arrepiada
Com a cara muito vermelha
Mas que grande trapalhada
Faço ideia o seu pensar:
_Olha a magana da velha
Já me está a assaltar

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