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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Com Pouco Mais Me Governo



O que a mim mais me consome
É de não encontrar forma
De eu cá passar menos fome
Com a minha magra reforma

Já pensei em pedir esmola
Mas se eu pouco sei tocar
Nas cordas de uma viola
Não me vou aventurar

Se ser fadista é destino
Por muito que eu tenha garra
Á capela desafino
E não sei tocar guitarra

E o povo também não sonha
Come migalhas à mesa
E ainda sente vergonha
Da sua própria pobreza

E se pensas logo existes
Pois pára de matutar
Que os teus olhos andam tristes
Ao ver a fome passar

E eu que até tenho fastio
De me sentir esfomeada
Já fui fazer um avio
Mas não deu quase p’ra nada

O chazinho é de limão
O café é de cevada
E com uma côdea de pão
Pois fico logo almoçada

Faço sopa ao jantar
Uma açorda uma canjinha
E p’ra não me empanturrar
Dá bem p’ra uma semanada
E logo p’la manhãzinha
Como então uma torrada

Tem dias p’ra ser diferente
O chouriço é refogado
Com umas tiras de toucinho
Mas não do entremeado
Ai e fico tão contente
Que até bebia um copinho
Um copinho de aguardente

Nisto p’acompanhamento
Cozo um arroz com feijão
Ou antes massa com grão
E misturo ao refogado
E é de muito alimento
Pois este meu cozinhado

Meio frango dá p’ra um mês
E depois do entalão
Isto lá de quando em vez
Posso fazer empadão
E vejam só quem diria
Que bem partidinho até
Dá p’ra fazer frango à guia
E também de fricassé

No carvão da sardinhada
Parece que estou em festa
E com o que dela resta
Faço então uma caldeirada
Ou sardinha de escabeche
Pois quando ela é congelada
Assim mesmo o preço desce

Em bacalhau nem pensar
Antes o peixe do pobre
Mas agora p’ró comprar
Só se andasse a roubar cobre

Com pouco mais me governo
P’ra minha fatalidade
De resto não vejo emenda
E se aumenta no Inverno
A conta da eletricidade
Já incluída na renda

E se acaso adoecer
Fico num grande calvário
A pensar que vou morrer
Pois sem poder aviar
Todo o meu receituário
Só sei que vou piorar

E eu nem queria falecer
Até me dão convulsões
Pois confesso tenho medo
Muito medo de sofrer
Mas vou contar em segredo
P’ra meu descanso moral
Já paguei às prestações
O meu próprio funeral

Pois se estava em promoção
E até sou bem governada
Comprei pois o meu caixão
E o meu bilhete de ida
E fiquei mais descansada
Tem quase a minha medida

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