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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Meu Marido Pescador



P’ra me poderes namorar
Vinhas sempre a horas certas
Querias-me então abraçar
Mas se era complicado
Com as portas entreabertas
Ficavas meio entalado

Por sinal eras bonito
E eu sentia-me orgulhosa
Tinhas todo o requisito
Mesmo que fosses malfeito
Do modo que eu sou teimosa
Achar-te-ia perfeito

Tinhas um jeito franzino
Com esse ar de cachopo
Como manda o figurino
Andavas sempre arranjado
Gostavas do teu piropo
E mesmo estando a chover
Ficavas todo encharcado
Pois se assim tinha que ser

Era namoro de janela
Não entravas lá em casa
Sempre com muita cautela
Ardia-te o peito em brasa
De resto havia respeito
Não sei as voltas que dei
Fiquei com a barriga ao peito
Não sei como me arranjei

E lá vinhas tu do mar
Ao frio à chuva ao relento
P’ra te poder confortar
Pois se eras tão meu amigo
Ao ver-te em tal sofrimento
Ao ver-te assim a tremer
Dava-te um licor de figo
P’ra te poderes aquecer

Tinha o jantar preparado
Nada que fosse grotesco
A sopa nem era rala
Depois vinha o ensopado
Se trazias peixe fresco
Eu ficava tão contente!
Que arrepiava a cavala
P’ró almocinho da gente

No temor de ser fatal
Se não sabem como é
Em dias de temporal
Punha-me eu então aos gritos
Carregadinha de fé
E haja quem me respeite
Posso dizer que oferendei
Muitas garrafas de azeite
Ao senhor dos aflitos
P’los milagres que passei

Também puxavas as redes
E davas-me uma beijoca
P’ra acalmares as tuas sedes
Na hora da despedida
De resto ias à minhoca
P’ra fazermos frente à vida

Com a calça arregaçada
E uma camisa aos quadrados
A cinta bem apertada
E com todos os percalços
Pegavas tu no andor
E sempre com os pés descalços
Pois se eras um pescador

Ias então cabisbaixo
Ficavas tão comovido
Nessa tua devoção
Pena que fosses p’ró baixo
Que até metia aflição
Pois pendia p’ró teu lado
E o santo ia descaído
Via o S. Pedro quebrado

E os barcos abençoados
Por entre as águas do Tejo
Ai tão bem engalanados
Mas que bonitos que estavam
E se era grande o cortejo
Só os teus olhos choravam

E querias que o nosso Alberto
Também fosse pescador
Mas eu cá não achei certo
E mesmo contrariado
Eu tive que me entrepor
Passava o dia a gritar
Meu querido filho adorado
Que sempre por ele me deleite
Se acaso fosse p’ró mar
Ai quantas garrafas de azeite

Vejam-se esta ironia
P’ra que não houvesse guerra
Deixou-o ficar em terra
Não o mandou para o mar
Vai-se a ver por teimosia
Como era p’ró sorrateiro
Pôs o filho a trabalhar
Logo dentro de um estaleiro

Ai e se a morte falasse
Se a morte não fosse traste
Ai se a morte te contasse
Pois que esteve a meia haste
Honrando a tua memória
Ai como recordo e lembro
A da classe piscatória
A da 1º de Dezembro
E a bandeira do Montijo
Ganhavas logo outra cor
Mas que eterno regozijo
Meu marido pescador



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