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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Fui Velar Uma Alminha



Fui velar uma alminha
Que eu nem sei se conhecia
Afinal à capelinha
Com uma pena mas das grandes
Já que era p’la minha idade
Fui à do Santos Fernandes
Pois se é nossa obrigação
Recordar a mocidade
Que outros tempos já lá vão

Coisas da minha Umbelina
Que p’ra ela é um desporto
Veio ter com a ti Albertina
Com as lágrimas no rosto
Lá fomos velar o morto
Encharcadas em desgosto

Nesse tempo antigamente
Velavam-se os falecidos
Hoje curiosamente
Fecham o gradeamento
E p’ráli ficam esquecidos
Pois vai ser a minha sorte
Que tamanho desalento
Na hora da minha morte

Toda a gente vai-se embora
E deixam-me abandonada
Por causa da minha nora
Que não perde uma novela
Ficarei p’la madrugada
Sozinha de sentinela

Mas voltando eu ao passado
Nem me quis mentalizar
Que o morto estava finado
Fartei-me até de chorar

Nem deu tempo p’ra comer
Lá bebi uma cevada
Pois sempre que o dever
Assim chama pela gente
Senti-me até enlutada
Já que não me era indiferente

Fui atrás da minha prima
Para dar as condolências
Só que ela ainda por cima
Fica toda atrofiada
Vai-se pelas aparências
E não percebe mais nada

Ainda fui ver do morto
Mas se afinal me enganei
Que as coisas deram p’ró torto
Pois nem tudo a gente encara
E eu que os pés lhe destapei
Só lhe queria ver a cara

A viúva ainda era nova
E eu por sinal me espantei
Se ele estava com os pés prá cova
Demais era aparvalhado
Ai tanto me questionei
Como se teria casado

E vai que a minha Umbelina
Foi-se deixando ficar
Vejam lá a minha sina
Nada me corria bem
Não tinha com quem falar
Estava p’rali oprimida
Nem conhecia ninguém
Que me desse outra saída

Só via as horas passar
De quando, em vez lá chorava
Sem poder exagerar
No meu próprio sofrimento
E era pois que então pensava
Naquele estranho casamento

A noiva tão comedida
Mas se há gente que é assim
Só que eu sou muito sentida
E gosto de extravasar
Na morte do meu Joaquim
Ai fartei-me de gritar

Estava quase a adormecer
Naquele tão gélido clima
Pensei que ia endoidecer
Pois vejam-me o absorto
Vai nisto que a minha prima
Ai o quanto gargalhava
Que o morto não era o morto
E eu que nem me acreditava

E não se dava calada
A vergonha que eu passei
Pôs toda a gente espantada
E até dobrava o riso
Senti-me num desconforto
Que depressa aleguei
Pois que lhe faltava o siso
E ela toca de ateimar
Que o morto não era o morto
Fartei-me de desculpá-la
Pois que estava a piorar
E eu só tinha que ir deitá-la

Mas percebi logo tudo
Estava capaz da comer 
Em abono da verdade
O que é mais contraditório
Tínhamos que ir a correr
Sem haver necessidade
P’ra fazer outro velório

E não haver um bandido
P’ra fazer pouco da gente
Que o caminho era comprido
Às cinco da madrugada
Podia-me dar por contente
Se fizessem pouco dela
Pois se estava tão danada
E falando muito a sério
Lá fomos nós p’rá capela
Capela do cemitério

Estava um frio de rachar
Estive p’ra voltar p’ra trás
Fui-me logo aconchegar
Pois assim que lá cheguei
Num aquecedor a gaz
Com um cobertor que encontrei

Senti-me reconfortada
Que eu gosto de ser modesta
E fui muito acarinhada
Estava tudo bem-disposto
E fizeram-me uma festa
Que elas só querem risada
Pois apesar do desgosto
Ainda me fartei de rir
Tive uma boa alvorada
Nem me deixaram dormir

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