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domingo, 22 de fevereiro de 2015

Abençoado Natal



Já fui comprar uma fronha
P’ra enfeitar a almofada
E outras prendas assim
Pois eu cá sinto vergonha
Na noite da consoada
Que se não lembrem de mim

Andei o ano a poupar
Com o dinheiro numa carta
Sem nunca lhe querer tocar
Foi a minha alternativa
P’ra ter uma mesa farta
Pois nesta quadra festiva

É tempo de repartir
Natal é de toda a gente
Passo a vida a dividir
Que assim mesmo deve ser
E eu cá fico tão contente
Ao ter prendas p’ra oferecer

Mas que lindo castiçal
Isto não é invejar
Vai-se a ver que ainda por cima
Aqui nem ficava mal
Tenho pena de o dar
Mas vou dá-lo à minha prima

Tive p’ra me vir embora
Pois isto só me aborrece
Lá comprei p’rá minha nora
Mas se a cabra não merece

Depois de alguma pesquisa
Para o meu querido filhinho
Foi então uma camisa
Com um distinto lagarto
Ai meu rico dinheirinho
Até tive dores de parto

P’ró meu neto com amor
Tive então uma miragem
E nem foi tirada a ferros
Comprei-lhe um auscultador
Pois se a minha aparelhagem
Está sempre a tocar aos berros

Já fiz filhoses estendidas
E fiz fatias douradas
Também fatias paridas
Tal como fiz rabanadas

E vem o bolo-rei à mesa
Como a couve portuguesa
E já não é nada mau
Cenoura nabo e batatas
Com um prato de bacalhau
Pois não são coisas baratas

E até quase que estou morta
Pois se a minha perna treme
Estive a dobrar uma torta
Mas tudo com alegria
E se até fiz leite-creme
Pois também fiz aletria

De doces estou fornecida
Dão conta das diabetes
Fiz pois então uns croquetes
E muito bem enrolados
E se fritei uns filetes
Fritei também uns panados

Comprei um franguinho assado
Muito bem condimentado
Já tenho muita comida
E temperado mas cru
A fermentar na bebida
Resta-me ainda o peru

Se bem que é uma só perna
Faço como a tradição
P’ra que não seja diferente
Pois se eu cá fui à taberna
Com um cálice p’la mão
Encharquei-a de aguardente

Mas fica só p’ró jantar
Nem sequer tinha pescoço
E o peru jamais se engelha
Fica pois a repousar
Vou cozinhar p’ró almoço
A tal dita roupa velha

Sinto-me cheia de azia
Ao pensar em tal fartura
Pois nem sempre a vida é dura
E andei a contar tostões
Pus a carteira vazia
Mas comprei uns camarões

Dão as doze badaladas
Como as passas com desejos
E pensar nesses ensejos
Parece até viciante
E ensopo com rabanadas
Uns copitos de espumante

No dia do ano novo
Como sou mulher do povo
Tenho sobras congeladas
Frito umas entremeadas
E ponho-me a petiscar
Vai até uma canjinha
Com uma perna de galinha
Ao almoço e ao jantar

E chegando ao dia seis
Pois se é dia dos três reis
A quadra chega ao final
Despeço-me então das renas
E resta-me a mim apenas
O que muito me cativa
Vir o próximo Natal
E eu saber que ainda estou viva



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