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terça-feira, 23 de julho de 2013

Longe Da Porta | Maria Albertina Natividade da Purificação





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 





 
A morte será enfim
O meu destino mais certo
Que o meu peito não a tema
Sou Aldeana de gema
Tal como o meu Joaquim
Montijense o meu Alberto

 

E falo à minha maneira
E até posso ser magana
Ser magana sim senhor
Minha mãe era peixeira
Se falo à Aldeana
Sou filha de um pescador

 

Minha rica mocidade
Já estou velha estou no fim
Mas tenho tanta saudade
De rirmos à gargalhada
Mais o meu querido Joaquim
Em noites de galhofada

 

Saudosa do que me lembro
Linda galega simpática
Ó Montijo eras altivo
Com a 1º de Dezembro
Mais a Banda Democrática
E o antigo Desportivo

 

Mas se formos ao presente
Pois que o Olímpico marque
Que eu fico muito contente
E também muito babosa
Em termos o nosso parque
Do qual me sinto orgulhosa

 

São Pedro dos pescadores
Com tão alegres festins
Bailes fados e touradas
Tal como os nossos jardins
Carregados de mil flores
Todas elas salpicadas

 

Em noites de sardinhada
Mas que fartura de pão
A acompanhar a sardinha
Depois vinha uma pinguinha
Ao toque da guitarrada
E eu ficava tão aérea
E se era tradição
Cantar-se a Júlia Galdéria

 

Irei dentro de um caixão
Quero morrer na minha terra
Na minha e dos Aguardentes
Faço ideia a escuridão
Quem morre logo se enterra
Com as placas e os dentes

 

Nos bancos do meu velório
Que me valem elogios?
Faço ideia os desvarios!
Pois se é só um falatório…
Não sonho em ter muita gente
Bastava-me alguém dizer
E eu ficava tão contente
O que me punha p’ra cima:
_ Afinal estás-te a mexer!
Nem que fosse a minha prima

 

Mas se tenho que morrer
Venha então mais um jarrinho
P’ra que me possa esquecer
Estou a ficar sequiosa
Eu gosto do meu tintinho
Misturado com a gasosa

 

E assim mesmo ganho alento
E vai um naco de pão
Com feijão e hortaliça
Que eu sou de muito alimento
E prefiro um salpicão
À delgada linguiça

 

Mas venha mais um copinho
Que é p’ra molhar a goela
Se vier mais um jarrinho
Vou-me pôr a festejar
Que entra sol pela janela
Pois se a vida me cativa
E se acabei de acordar
É porque afinal estou viva

 

Se a morte bater-me à porta
Eu nem a vou receber
Finjo até que já estou morta
Que me fui a enterrar
Pode nem se aperceber
Que a estou a querer enganar

 

 

 
ILUSTRAÇÃO/ARTE DE MIGUEL MATOS

 


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