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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Sonho Tropical 1 | Maria Albertina Natividade da Purificação

 
 
 
 

Tenho um sonho que acalento
Que é ir viver p’ró Brasil
Mas se não tenho orçamento
P’ra um clima tropical
Entrego-me ao meu covil
Ficarei por Portugal

 

E até ia num cruzeiro
Saía deste país
Pois se tivesse dinheiro
P’ra com ele me governar
Era menos infeliz
Tinha até economias
E depois de lá chegar
Gozava das regalias

 

Regalias sociais
Bastava ser pobre e grata
Com causas fundamentais
P’rá vida me ser barata

 

Espraiava-me então na praia
E era até o sol se pôr
Com uma saia de cambraia
Fazia uma festarola
E até me punha a compor
E raiada de alegria
Punha-me a tocar viola
Nas cordas da fantasia

 

E de tanto dedilhar
Essa moda brasileira
Punha-me então a sonhar
Com a viola a gemer
Depois ia mergulhar
Isto só p’ra arrefecer

 

E brincava com a areia
Ao vê-la rodopiar
Sentia-me uma sereia
Que o meu jeito não descamba
E aprendia a navegar
Nas voltas que tem o samba

 

E bordava os meus castelos
Em areias de novelos
Tão principescos, tão belos
E deitava-me a nadar
Sem que molhasse os cabelos
Nas ondas doces do mar

 

Depois logo me aquecia
Tão relaxada estendida
Mas só quando entardecia
Deixava de ser sereia
E afagava enternecida
Como quem acaricia
Os meus castelos de areia

 

Já tenho uma certa idade
E até posso ser gaiteira
Mudo a nacionalidade
Com um novo casamento
Torno-me então brasileira
Por conta do sentimento

 

Ó meu rico Portugal
Ai tenho-te muito amor
Mesmo sendo genial
São sete cães a um osso
E ninguém me dá valor
Sobra-me sempre o caroço

 

Mas que boa sensação
Ai clima tropical
Que é quase sempre verão
Nem me punha a tilintar
Como cá em Portugal
Pois que aqui não me governo
E se ando sempre de tanga
É um frio de rachar
Lá por sinal no inverno
Punha umas calças de ganga

 

 
 
(ILUSTRAÇÃO/ARTE DE MIGUEL MATOS)


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