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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Procuro Um Pretendente | Maria Albertina Natividade da Purificação

 
 
 
 



Pois sempre fui de risotas
E de boas gargalhadas
E de contar anedotas
E acho-me graça a mim
Gosto de boas piadas
Rio do princípio ao fim

 

Tenho p’ra dar muito amor
Se afinal sou inteligente
Com o meu sentido de humor
Que goste de gargalhar
Procuro um pretendente
E que tenha amor p’ra dar

 

Mas se vivo insatisfeita
É com cada camafeu
Deito-me então contrafeita
Por sinal arreliada
Mas nos braços do Morfeu
P’ra estar mais aconchegada

 

Começo-me a recordar
Do meu defunto marido
Como se fosse a sonhar
Com aqueles olhos encantados
Que pena ter falecido
E se eles eram esverdeados

 

Bailavam alegremente
Sempre assim foi toda a vida
E às vezes tão docemente
Tão meigos tão ternurentos
Que me sentia perdida
Nesses nossos juramentos

 

E se estava enamorada
Sempre o estive certamente
Às vezes enciumada
Punha-me até convencida
Se o ciúme era doente
Ai ficava enfurecida

 

Ia-me então desferrar
Desatava às bofetadas
Sempre que te ia encontrar
Em amenas cavaqueiras
E elas com elas fisgadas
Pois se eram muito interesseiras

 

Sempre me foste fiel
E disso tenho a certeza
E eu fazia o meu papel
De ser toda rabitesa

 

Eras um tipo jeitoso
E sempre o foste assim
Por sinal todo dengoso
Só tinhas olhos p’ra mim

 

Mas sinto uma solidão
Neste preciso momento
E até te peço perdão
Por aquilo que estou a sentir
Queria um novo casamento
P’ra me puder divertir

 

E que seja amoroso
Como tu sentimental
Que seja um tipo engenhoso
Saiba até fazer dinheiro
Estou farta de passar mal
Nem que seja um sapateiro

 

Pois que faça os seus biscates
Tenha reforma também
Que eu ando com uns alicates
Ai por conta da fraqueza
E só me fazia bem
Perdia toda a tristeza

 

Não queria um divorciado
Viúvo de preferência
Sem casamento marcado
Pois  p’ra fugirmos às normas
P’ra nossa conveniência
Ficávamos fornecidos
Logo com quatro reformas
Por conta dos falecidos

 

O que só faço é pensar
No meu novo ajuntamento
E até ia festejar
Bebia então uns canecos
Nesse preciso momento
E ao ficar comprometida
Juntava então os tarecos
Com o amor da minha vida

 

Hoje nem quero um abastado
Saía-me algum sovina
Que seja remediado
E que vá à minha frente
Que a ti Maria Albertina
Já se dava por contente

 

Pois p’ra sofrer estou cá eu
E sempre tão conformada
Vai-se a ver também morreu
O meu defunto Joaquim
Deixou-me desamparada
E se ele gostava de mim

 

É verdade que chorei
Ai tão triste desgostosa
Só eu sei o que passei
E com falta de dinheiro
Mas como sou generosa
Quem vier que vá primeiro

 

Mais caixão menos caixão
Pois já tenho um reservado
Que comprei em promoção
E posso até dispensar
Está muito bem acabado
P’ra quem o queira comprar

 

Mas tenciono ser feliz
E quase que eternamente
Olhas p’ra mim e sorris
Perante tanta virtude
E nem me desejas mal
Pois vai-te assim de repente
Dou-te um lindo funeral
Não me metas em trabalhos
Se te faltar a saúde
Não fiques feito em frangalhos

 

E é este pois o meu sonho
Sozinha não quero ficar
E com um futuro risonho
Pois tenho estes pensamentos
E sem sequer me casar
Quero viver dos rendimentos

 

 

 
ILUSTRAÇÃO/ARTE DE MIGUEL MATOS

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