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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Serei Um Dia Famosa | Maria Albertina Natividade da Purificação

 
 
 
 
 
Rimo por tudo e por nada
O que muito me realiza
Se acaso estou inspirada
Faço poesias estupendas
Do povo sou poetisa
E até recebo encomendas

 

O que afinal me convém
Vai-se a ver que até me acalma
Pois se me sabe tão bem
Não é que eu seja interesseira
Mas se me faz bem à alma
Melhor me faz à carteira

 

Cada rima uma filha
E a poetisa se engraça
Levo um euro por sextilha
E de tudo um pouco conto
E faço as quadras de graça
Como se fosse um desconto

 

Faço motes faço glosas
E mesmo assim nunca falho
E se são meticulosas
Sempre com a mesma cadência
Requerem muito trabalho
E uma certa paciência

 
 
E sigo este meu impulso
Que me põe a poetizar
Vendo versos a avulso
Se parece mal ou bem
Se acaso ando a mendigar
Se a algum de vós vos pareceu
Não devo nada a ninguém
E vendo tudo o que é meu

 

Canto até à desgarrada
Ai quando estou destemida
Claro que sou envergonhada
Mas se afinal nem pareço
Preciso estar bem bebida
Isto p’ra não hesitar
Pois vai-se a ver que me esqueço
E começo a gaguejar

 

Mas com um jantar bem regado
Até pareço um melrinho
Podem-me ouvir cantar fado
Com a minha voz maviosa
E lá vem mais um jarrinho
E começo a improvisar
Bebo tinto com gasosa
Mal me conseguem calar

 

E das demais candidatas
Lá vêm os namorados
E encomendam-me serenatas
Ponho-me a cantarolar
Ficam mais apaixonados
Faço então a minha parte
E um deles vai ter que pagar
O engenho da minha arte

 

Faço até de carpideira
Pois se já fui contratada
É mais algum p’rá carteira
Deu-me dó e piedade
Fiquei então derreada
Que o morto ia sozinho
Chorei até de vontade
Com pena do pobrezinho

 

E como sei prosear
Sou dama de companhia
Ponho-me então a contar
A história da minha vida
Com tamanha a fantasia
Que a torno tão divertida

 

Vejo o mundo bem-disposto
Vai-se a ver que a gargalhada
Ainda não paga imposto
Se acaso um dia pagar
Ficarei bem arranjada
Pois só quero é gargalhar

 

E se acaso animo a malta
Pois que seja sempre assim
Que o trabalho faz-me falta
E se ando de pele e osso
É por conta do pilim
Também da minha colite
Vai tudo até ao caroço
Pois se eu cá tenho apetite

 

Serei um dia famosa
Já que sou uma otimista
Tenho sonhos cor-de-rosa
Com os quais tanto convivo
Nem vejo as coisas p’ró torto
E já dizia uma artista
Que o contrário de estar vivo
É afinal estar-se morto

 

 

 

ILUSTRAÇÃO/ARTE DE MIGUEL MATOS

 
 
 
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