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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A Quinta | Maria Albertina Natividade da Purificação







Ai recordo a mocidade
Tão belas desenxovalhadas
Ainda na flor da idade
Vai-se a ver que de repente
Já não tenho as peles esticadas
Como nesse antigamente



Sempre fomos muito amigas
E umas primas chegadas
Muito boas raparigas
E por sinal educadas

 

E gostava da folia
E se era namoradeira
Sempre com muita alegria
E apenas por brincadeira

 

Minha prima era bonita
Contudo envergonhada
Pus-lhe um vestido de chita
E pensava que era cedo
Mas ficou apaixonada
P’lo seu defunto Alfredo

 

Entretanto até, que enfim
Também eu me apaixonei
P’lo meu defunto Joaquim
Com quem por fim me casei

 

Mas ainda em solteiras
Como quem quer mudar de ares
E duma forma distinta
Armámo-nos em caseiras
Com animais e pomares
Fomos morar p’ra uma quinta

 

P’lo tempo das andorinhas
Fizemos pois criação
De patos e de galinhas
E de um pequeno leitão

 

E a horta sempre a crescer
No tempo de rebentar
Até dava gosto ver
Pois se era só apanhar

 

A batata a cenoura
A abóbora e o feijão
Eram parte da lavoura
Da nossa alimentação
As alfaces e as nabiças
No reino das hortaliças
Caramelas rabitesas
Essas couves portuguesas

 

E a casa era fresquinha
P’ra podermos relaxar
Saía pela tardinha
Até quase anoitecer
Punha-me então a regar
Tudo como deve ser

 

Fazias tu o jantar
Tratava dos animais
Depois vinhas-me espreitar
Ai e era só gargalhada
Festança e reinação
Pois se eu cá era engraçada
Nos tempos que já lá vão

 

E lá ias tu à vila
Por sinal toda enfeitada
E sempre muito tranquila
Guardaste pois em segredo
Que estavas enamorada
E nem sequer me contaste
Afinal pelo Alfredo
Com quem depois te casaste

 

Parecias contrariada
Dava por ti a chorar
Mas não me dizias nada
Estavas cada vez mais triste
Não podia imaginar
E vai-se a ver que fugiste

 

E foi cá uma barraca
Mas que tamanha loucura
Não te fazia velhaca
E andei à tua procura

 

Ninguém sabia de ti
E voltastes desonrada
Foi então que percebi
Pelo teu desassossego
Que te querias ver casada
Com esse tal dito Alfredo

 

E fizeste-me uma finta
Deixaste-me desamparada
Vai-se a ver larguei a quinta
Pois não me via sozinha
E ao menos fui convidada
P’ra ser a tua madrinha

 

 

 

ILUSTRAÇÃO/ARTE DE MIGUEL MATOS

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