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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A Herança | Maria Albertina Natividade da Purificação










Há histórias inexplicáveis
Nem me cabem na lembrança
De coisas inevitáveis
Não é que a minha Umbelina
Se bem que isto é segredo
Recebeu uma herança
Por conta do seu Alfredo

 

Afinal era abastado
Vá-se lá compreender
Por sinal abrasonado
E sempre escondeu da gente
Quem havia de dizer
Se andava alcoolizado
Ele só queria era aguardente
P’ra se esquecer do passado

 

Disse adeus e veio-se embora
Nem uma peça de mobília
E ao sair dali p’ra fora
Ele de tudo foi capaz
E abandou a família
Sem nunca voltar atrás

 

Isto faz-me confusão
E se era o único herdeiro
Sem nunca ter precisão
Fartou-se de trabalhar
Pois se até foi salineiro
Foi coveiro e lavrador
Ia lá imaginar
Que ele era um grande senhor

 

Veio um primo por sinal
Deste dito falecido
E revelou que afinal
Estava rica a minha prima
Por parte de seu marido
Que nunca foi possidónio
Vai-se a ver que ainda por cima
Tinha um grande património

 

Tinha jardins tinha fontes
Palacetes com capelas
Muitas herdades e montes
E ainda tinha vielas

 

E estava tudo abismado
Sem se entender patavina
Pois que Deus seja louvado
Ai que o Alfredo era rico
Temi que a minha Umbelina
Ainda tivesse um fanico

 

Vai que ele teve uma donzela
Com quem estava p`ra casar
Mas se nem gostava dela
Nem lhe tinha qualquer estima
Veio-se então enamorar
E logo p`la minha prima

 

Por tal sinal era novo
Tinha perdido a cabeça
E com os pais foi conversar
Mas como ela era do povo
Não podia ser condessa
Não quiseram aceitar

 

E viu-se então meio perdido
Pois se a tinha desonrado
Tornou-se então seu marido
Virou costas ao dinheiro
E deu-se por deserdado
Por ventura era o mais certo
E foi então p´ra coveiro
P`ra nunca ser descoberto

 

Ele tinha um jeito miúdo
E até andou a abrir valas
Vai-se a ver tinha um canudo
Sempre o achei inteligente
Mas se era de poucas falas
Até mesmo com a aguardente

 

Realmente era p’ró fino
Pois tinha um tipo distinto
Mas por força do destino
De tanto se embriagar
Ora branco ora tinto
Por sinal do carrascão
Pôs-se então a definhar
E teve uma psicose
Foi cá uma depressão
E entregou-se à bagaceira
O que o levou à cirrose
Minha prima ainda era nova
E com tanta bebedeira
Ai ajeitou-se a tal sorte
E ficou com os pés p´rá cova
Foi então a sua morte

 

E nisto pois vai-se a ver
Mas que notícia oportuna
E ninguém se queria crer
Nesta nova repentina
E se é tão grande a fortuna
Pois não dá p´ra imaginar
Que tem a minha Umbelina
Ai afinal por herdar

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