Número total de visualizações de página

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Ai Portugal, Portugal!





Ai Portugal, Portugal
Fico tão desnorteada
Se vejo o Telejornal
Ainda dizem que educa
Mas se me sinto ultrajada
E dou por mim paranóica
Com a minha cabeça maluca
Tudo por causa da Troika

Nem sei se morra se viva
Com a reforma a minguar
Sinto o aumento do Iva
Perco a vontade de rir
Só me apetece chorar
Não sei p’ra onde hei-de fugir

Mesmo com a minha idade
Estava capaz de emigrar
Era uma oportunidade
Pois se aqui não faço nada
Quem me dera trabalhar
Ia-me embora de vez
E punha-me a lavar escadas
Só que eu cá fui reformada
Logo por invalidez
Fiquei com as pernas cortadas

E cá vivo eu neste inferno
Ai, credo estou tão farta
Não me entendo com o governo
Mas que destino sombrio
Se recebi uma carta
Com o aumento da renda
E pede-me o senhorio
O preço duma vivenda

Eu fui logo recorrer
Não tenho como pagar
E a mim ninguém me empresta
Pois se ficava a dever
E ponho-me a matutar
Não sei se diga se conte
Mas a mim o que me resta
É ir p’ra baixo da ponte

Mais pequena do que a minha
É difícil de encontrar
Ai minha rica casinha!
Que até as águas furtadas
Eu cá já fui indagar
Com aquelas estranhas esquadrias
Já estão todas arrendadas
Apesar das escadarias

E há por aí muita fome
Neste tal desassossego
Muita gente que nem come
Pois se eu só oiço falar
Que o maldito desemprego
Está sempre, sempre a aumentar

Às vezes sem subsídio
Até pode ser fatal
Mas quem tenta o suicídio
Pode crer está-se a afundar
Pois se acaso não morrer
Não vai ter como pagar
Uma cama de hospital
E ao depois fica a dever

Continuo adoentada
Estive mal quase morri
Ai credo ou vou ou racha
Vai-se a ver sobrevivi
Sem sequer ser medicada
Mas nem sempre a gente aguenta
Pode ser que isto mude
Mas ao subirem a taxa
Como eu cá não sou isenta
Pus-me de boa saúde

Vejam a mendicidade
Com os rostos entristecidos
Pelas ruas da cidade
E há por aí tantos tesos
Pior que alguns estão escondidos
E outros há que já estão presos

Mas temos o parasita
Nunca se dá por contente
Coisas de gente esquisita
(Ir p’ra fora pois que importa?!)
Se a pessoa não está morta
Nem presa a uma algália
Parece-me conveniente
Se acaso quer trabalhar
Nem que seja na Austrália
Ou nas terras do Ultramar

Fazem uns belos contratos
Até pagam as viagens
A todos os candidatos
Sem contar com o ordenado
De resto são só vantagens
Mas se alguém for enganado
No caso de correr mal
O que não me é indiferente
Trás então p’ra Portugal
Aquilo que pode trazer
Uma mão atrás e outra à frente
Não tem nada que saber

E o povo tem que ser forte
Pois se eles pensam cortar
Com o subsídio de morte
Mas como eu sou precavida
P’ra minha sorte ou azar
Comprei o caixão em vida

Ainda fui procurar
O preço de ser cremada
Mas não fazem prestações
E depois de examinar
Preferi ser enterrada
Virei-me antes p’rós caixões

E sinto-me amarelecida
Pois se me estão a enterrar
Aos poucos na sepultura
Estou a ficar espavorida
Pode até parecer loucura
Mas nem sei em quem votar
E carregada de pena
Só me apetece cantar
“Grândola Vila morena”!


Sem comentários:

Enviar um comentário